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domingo, 4 de outubro de 2015

Os brasileiros não merecem

Por Suely Caldas, O Estado de S. Paulo, 04/10/15

É o ministério da mediocridade, zero de coerência com um projeto para o Brasil, zero de competência específica para os cargos, abaixo de zero em credibilidade. É coisa do passado escolher ministros com critérios de conhecimento específico, liderança em gestão e programa de ação para a pasta. Com a reforma ministerial, o governo virou um "salve Dilma", porque o único propósito é impedir o impeachment no Congresso - embora o PT saiba que só vai conseguir alongar a trágica agonia da presidente. Até quando?

O PT, ela e Lula (este como interventor) mediocrizaram e reduziram o País à Praça dos Três Poderes, em Brasília, deixando 200 milhões de brasileiros ao relento, desabrigados, sem horizonte, sem esperança, vivendo as situações do desemprego, que dispara, dos salários que encurtam e da inflação, que confisca o dinheiro das famílias. Demitir da Educação o professor Renato Janine Ribeiro, único ministro com planos para melhorar a sua área, deixa vazio, sem sentido e desmoralizado o slogan Pátria Educadora. Melhor tirá-lo do ar.

Tudo isso por causa de governos desastrados do PT, que brincaram de governar, exorbitaram em gastos públicos e foram desmoralizados com a corrupção. Seu único projeto para o País foi tão somente se perpetuar no poder. E para quê? Eles também não sabem. Até na área social o populismo desarvorado, combinado com a gestão autocrática e incompetente do dinheiro público, minou os feitos de Lula e Dilma e tornou muito breve a alegria dos brasileiros que ascenderam à classe média, passaram a consumir bens, acreditaram que teriam emprego garantido no futuro e, agora, veem desaparecer tudo o que conquistaram.

Pesquisa recente do Ibope confirma o divórcio entre a presidente e a população. Com menos de um ano de reeleita, Dilma hoje é reprovada por 82% dos brasileiros e sua popularidade está em 10%, a mais baixa da história republicana. Em ritmo tão acelerado, essa distância foi se alongando à medida que os eleitores que nela votaram (de todas as faixas sociais) descobriram suas mentiras, que os iludiram na campanha eleitoral, e hoje se sentem traídos.

Não prospera e nada constrói um governo sem credibilidade. E Dilma, PT e Lula perderam a confiança dos brasileiros - ricos e pobres, empresários e trabalhadores, investidores e operários, jovens e idosos. A reforma ministerial, por sua vez, foi um golpe mortal naqueles que ainda acreditavam, sem nenhum interesse. Restaram a ela as lideranças (sem apoio dos representados) de movimentos sociais comprados com generosas verbas do governo nos últimos anos.

Só que, agora, o dinheiro sumiu, a fonte secou e eles começam a abandonar o barco, como os sem-teto acabam de anunciar. O mais triste e lamentável desses movimentos é a União Nacional dos Estudantes, a famosa UNE, com uma memorável história de lutas e liderança, hoje rebaixada ao clube dos pelegos e rejeitada pela grande maioria de jovens estudantes.

Neste movimento de desconstrução, a crise política segue piorando e devorando qualquer esperança de recuperar a economia. Nos últimos dias, o governo divulgou uma coleção de más notícias, que espicham o túnel escuro sem fim e sem luz: o ajuste fiscal fracassa e o governo central acumulou déficit de R$ 14 bilhões até agosto; a taxa de desemprego bate recorde, saltando para 8,6% até julho e elevando para 8,6 milhões a população desempregada no País; com 27 empresas na fila, governo só libera verba do Programa de Proteção ao Emprego para 6 empresas; entre 140 países pesquisados, em um ano o Brasil perdeu 18 posições no ranking mundial de competitividade, recuando para o 75.º lugar; e, sem subsídios tributários, a venda de carros novos vai cair 24% este ano. De positivo, só os números do setor externo, alimentados pela desvalorização do real, que incentiva a entrada e inibe a saída de dólares, mas causa enorme estrago para a inflação e a alta dos preços.

Francamente, não será com ministros que só querem extrair vantagens para seus partidos ou redução de 10% em seus salários que Dilma vai recuperar a economia e a confiança do Brasil.

* Suely Caldas é jornalista e professora da PUC-Rio. E-mail: sucaldas@terra.com.br

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Lula, o menino sem rosto ou Lula, o menino das muitas faces

Por Lorenzo Dumas

Lula: o menino sem rosto!
Texto sobre luz e sombra, sobre o bem e o mal, sobre o PT e o tempo que urge em nascer:

Aquela não foi uma trovoada comum. A Segunda Guerra Mundial acabara de chegar ao seu término, o tribunal de Nuremberg começava a se desenhar, Getúlio Vargas estava prestes a ser deposto pelo general Góes Monteiro, a criação do estado de Israel dividia a Palestina, e o mundo, essa ignóbil abstração que o ser humano transformou em purgatório, entrava em um longo período onde a Guerra Fria ditaria as regras da geopolítica no século XX.

Hoje, eu sei que aquela trovoada, que se perdeu nas veredas do ano de 1945, não dizia respeito à nenhuma dessas circunstâncias. Não dizia respeito nem ao roceiro Henry Truman que meses antes havia semeando duas bombas atômicas no coração da humanidade, nem ao fatídico destino de Josef Stalin, homem mais temido da época, que oito anos mais tarde sofreria um derrame e perderia a vida mergulhado em sua urina.

Tampouco foram os nascimentos de Neil Young e Eric Clapton, que também se deram naquele ano, a razão do sobrenatural que me acometera. Foi no interior de Pernambuco, no pequeno distrito de Caetés, que no dia 27 de outubro de 1945 nascia a causa do retumbante presságio que ecoou em minha consciência juvenil e que ainda hoje, no alto de meus 74 anos, me causa desagradáveis calafrios: o nascimento de Luís Inácio Lula da Silva.

Naquela noite fria de primavera, minha mãe me pôs para dormir e como eu relutava em cair no sono por estar certo de que havia um terrível desígnio que acabara de ser marcado em meu destino, pedi para que ela, mulher religiosa cuja certeza acerca da eternidade me concedia a ilusão de ser senhor de mim por ínfimos instantes, me contasse uma história que pudesse acalmar o meu temor desmedido. ‘’Sois um homem, imbecil! Comporte-se como tal!’’, me recordo de ter pensado instintivamente ao ver minha mãe cedendo ao meu capricho.

Mas como Marcel Proust em sua infância, eu também abdicava da minha dignidade, do meu amor-próprio de garoto, apenas para sentir o calor materno mais próximo: ‘’De tempos em tempos – disse-me ela, certa vez – assim como o céu, as trevas abrem as suas cancelas e enviam emissários para a terra. A luta entre o bem e o mal é a luta entre o esclarecimento e a ignorância; entre a generosidade e a ignomínia. É a luta que foi dos teus ancestrais e que será dos teus descendentes. É luta da tua vida que terás que desvendar. E a vida, meu filho, nada mais é do que luz e sombra. Para ser sábio é preciso ser bom e o mal, embora abominável, muitas vezes nos guia com eficiência para o caminho do bem. Só assim aprenderás a interpretar os sinais da vida. Isso que sentiste hoje foi um sinal. No final, Deus precisa mais da gente do que a gente precisa de Deus’’.

Por muito tempo essas palavras tomaram conta dos meus pensamentos. Embora eu não alcançasse a totalidade dos dizeres de minha mãe, havia algo em meu inconsciente que tocava nas profundezas daquela sabedoria sem que a minha razão tomasse conhecimento. O passar dos anos me trouxe maturidade. Me tornei menos impulsivo e mais observador; menos medroso e mais paciente. Havia quase esquecido o furor psicológico que aquela noite de 1945 tinha causado em meu íntimo, até que, em setembro de 1952, uma viagem a trabalho de meu pai, com destino a Governador Valadares, me trouxe aquele sentimento arrebatador de volta. Eu me encontrava no carro, observando a paisagem à medida que atravessávamos as precárias estradas mineiras, quando um pau de arara tomado pela miséria surgiu no horizonte e se aproximou em nossa direção.

O menino Lula surge, enfim: sem rosto

Me lembro dos mais de 30 retirantes espremidos entre a sobrevivência e a indignidade. Minha mãe fez o sinal da cruz; meu pai fez que não viu. Como íamos em direções diferentes, pude vê-los passando rente à minha janela. A miséria não mais invisível aos meus olhos me envergonhava. Nada desperta mais o pudor de uma criança do que a sorte miserável de um semelhante. E em uma miscelânea de sentimentos contraditórios que afloraram em minha alma, o olhar sinistro de um garoto que vestia trapos veio de encontro ao meu. Eu poderia jurar que aqueles olhos negros, vidrados, se avermelharam a tal ponto que eu já não poderia mais distinguir ao certo a realidade da fantasia. Ele sorriu em resposta à minha exasperação. Já não era então apenas um garoto. Era um homem sem rosto, sem feições, capaz de emprestar a si qualquer semblante humano. Em verdade, sequer era um homem: era o retrocesso histórico, um buraco negro do universo brasileiro que devoraria toda uma geração com a violência dos sem caráter. Anos mais tarde, eu viria a saber que aquele menino misterioso era Luís Inácio Lula da Silva. Ele havia saído do interior de Pernambuco num pau de arara com sua mãe e irmãos para se dirigir à São Paulo, onde o seu pai morava, e assim dar início à sua escalada ao poder. Jamais me esquecerei deste dia.

Chegar aos 74 anos no Brasil não é fácil, mas uma das benesses de se estar vivo há tanto tempo é que você deixa de criar expectativas com relação à humanidade e encara o pior não como um tormento, mas como uma necessidade histórica. A história é o fluxo inconsciente da humanidade e os mecanismos pelos quais os seus acontecimentos se dão estão fora da possibilidade de compreensão racional, ainda que o seu estudo, com efeito, permita uma compreensão mais ampla da vida. E embora sejam os acadêmicos aqueles que escrevem a história, são as inúmeras e insondáveis ocasiões e coincidências, jamais registradas, entre homens e circunstâncias, o que a define de fato. A história é o rastro do destino e nós, recitou Shakespeare, ''somos os bobos do tempo''.

Observando a chegada de Lula e sua corte ao poder, uma verdadeira comitiva do mal que sequestrou o país, percebo que minha mãe tinha razão quando disse que o mal muitas vezes nos guia com eficiência para o caminho do bem. É verdade que o país está aparelhado até a raiz pelo governo, com a miséria estrategicamente transformada em votos, e com comunistas pretendendo ser paladinos do capitalismo, mas é também verdade que nunca se viu uma época em que o brasileiro estivesse tão descontente com o arranjo das coisas. Logo o brasileiro, este ser historicamente atávico, conformado e acima de tudo desinformado, hoje não se conforma com as notícias que lê diariamente.

Se hoje a grei de Lula está no poder é para que nós entendamos que o PT é uma quadrilha que surrupia dinheiro, verdades, valores e direitos, dividindo a sociedade brasileira em guetos sociais para multiplicar o seu poder que é financiado pela farsa do assistencialismo. Se Dilma foi reeleita é porque assim deve ser para que a ilusão petista se desfaça por completo. Assim deve ser para que os cidadãos brasileiros comecem a perceber que os socialistas são essencialmente ladrões do bem alheio, que os conselhos populares são uma fraude populista, que as empresas estatais são colmeias de zangões estéreis que se lambuzam com o mel público e que assistencialismo é o voto de cabresto do século XXI. Afinal, prezado leitor que ainda me acompanha, o que poderia fazer o senador Aécio Neves em quatro anos senão pagar por uma dívida que ele não contraiu e, no fim, ser culpado por um crime que não cometeu? Mais quatro anos de Dilma Rousseff é tudo o que o Brasil precisa para que o PT se destrua por completo. Infelizmente, o país será igualmente arruinado, mas, como a fênix lendária, renascerá das cinzas e baterá as asas com a força de quem aprendeu com a sua própria história.

O Brasil está prestes a acordar de um pesadelo corrupto, que se prolonga desde a independência, e que atingiu o seu cume populista na última década e é graças ao menino sem rosto que cruzou o meu caminho há mais de 60 anos que o país vê uma possibilidade de se reencontrar consigo mesmo de uma vez por todas. É graças a ele que novamente sinto uma exasperação em minha alma, como as que me acometeram na juventude, onde um palpite instintivo me diz que não tardará para que o PT seja enviado para as sombras, junto do homem sem rosto, ao lado do seu séquito de farsantes, dando lugar à luz de um novo tempo que urge em nascer''.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Para o PT a história se repete

MARCO ANTONIO VILLA

Uma nova operação da Polícia Federal atingiu o Partido dos Trabalhadores. Não é a primeira vez. Mesmo com todo o estardalhaço causado pelo julgamento do mensalão, parece que nada detém a ânsia de saquear o Erário. Agora, uma das acusadas é a chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Nóvoa de Noronha, que teria negociado pareceres técnicos fraudulentos.
 
Os agentes da PF foram ao escritório chefiado por Rosemary para a devida busca e apreensão de documentos. Indignada, a funcionária não fez o que seria considerado plausível: entrar em contato com seu advogado. Não. Buscou algo superior: o sentenciado José Dirceu. Isto mesmo, leitor.
 Leia mais.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Entidades criticam declaração de Dilma sobre tortura em delegacias

Na Folha Online. Volto em seguida.
Entidades de direitos humanos divulgaram nesta quarta-feira (11) nota de repúdio à declaração da presidente Dilma Rousseff sobre tortura em delegacias. Ontem, durante sessão de perguntas feitas pela plateia na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Dilma disse que não tinha como “impedir em todas as delegacias do Brasil de haver tortura”. A nota, assinada por dez organizações, pede uma declaração explícita da presidente de que não tolerará a tortura e empenhará todos os esforços para combatê-la.
“A declaração de Dilma –ela mesma ex-presa política e vítima de tortura– é inadmissível sob qualquer circunstância, mas vem revestida de ainda maior gravidade porque ocorre num momento especialmente sensível. O país enfrenta hoje um debate acalorado sobre o estabelecimento da Comissão da Verdade, que conta com o apoio da presidente, para esclarecer crimes praticados durante a ditadura militar, incluindo o crime de tortura.”
(…)
ComentoSerei breve. Procurem no arquivo do blog a expressão “presos sem pedigree” (sem as aspas). Já escrevi aqui algumas vezes sobre o dar de ombros das autoridades brasileiras para a tortura de presos comuns no Brasil, o que é, obviamente, uma barbaridade. Ninguém está nem aí. São o que chamo “presos sem pedigree”, que não têm a marca da distinção ideológica.
Por Reinaldo Azevedo -Veja.com - 11/04/2012 às 18:58

Comentário Notícias Daqui e Dali: é difícil acreditar que a sra. presidente tenha sido torturada alguma vez em sua vida! Aliás, parece que ela e sua turma tem um pacto severo e fechado com a mentira!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

sexta-feira, 11 de junho de 2010

PT, Adeus!

Sandra Starlis, após 30 anos no PT, partido ajudou a fundar, protetsta contra Hélio Costa e deixa o partido declarando:


Foto Divulgação

MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO”
Adeus ao Partido dos Trabalhadores
Sandra Starling

Ao tempo em que lutávamos para fundar o PT e apoiar o sindicalismo ainda “autêntico” pelo Brasil afora, aprendi a expressão que intitula este artigo. Era repetida a boca pequena pela peãozada, nas portas de fábricas ou em reuniões, quase clandestinas, para designar a opressão que pesava sobre eles dentro das empresas.

Tantos anos mais tarde e vejo a mesma frase estampada em um blog jornalístico como conselho aos petistas diante da decisão tomada pela Direção Nacional, sob o patrocínio de Lula e sua candidata, para impor uma chapa comum PMDB/PT nas eleições deste ano em Minas Gerais.

É com o coração partido e lágrimas nos olhos que repudio essa frase e ouso afirmar que, talvez, eu não tenha mesmo juízo, mas não me curvarei à imposição de quem quer que seja dentro daquele que foi meu partido por tantos e tantos anos. Ajudei a fundá-lo, com muito sacrifício pessoal; tive a honra de ser a sua primeira candidata ao governo de Minas Gerais em 1982. Lá se vão vinte e oito anos! Tudo era alegria, coragem, audácia para aquele amontoado de gente de todo jeito: pobres, remediados, intelectuais, trabalhadores rurais, operários, desempregados, professores, estudantes. Íamos de casa em casa tentando convencer as pessoas a se filiarem a um partido que nascia sem dono, “de baixo para cima”, dando “vez e voz” aos trabalhadores. Nossa crença abrigava a coragem de ser inocente e proclamar nossa pureza diante da política tradicional. Vendíamos estrelinhas de plástico para não receber doações empresariais. Pedíamos que todos contribuíssem espontaneamente para um partido que nascia para não devermos nada aos tubarões. Em Minas tivemos a ousadia de lançar uma mulher para candidata ao Governo e um negro, operário, como candidato ao Senado. E em Minas (antes, como talvez agora) jogava-se a partida decisiva para os rumos do País naquela época. Ali se forjava a transição pactuada, que segue sendo pacto para transição alguma.

Recordo tudo isso apenas para compartilhar as imagens que rondam minha tristeza. Não sou daqueles que pensam que, antes, éramos perfeitos. Reconheço erros e me dispus inúmeras vezes a superá-los. Isso me fez ficar no partido depois de experiências dolorosas que culminaram com a necessidade de me defender de uma absurda insinuação de falsidade ideológica, partida da língua de um aloprado que a usou, sem sucesso, como espada para me caluniar.

Pensei que ficaria no PT até meu último dia de vida. Mas não aceito fazer parte de uma farsa: participei de uma prévia para escolher um candidato petista ao governo, sem que se colocasse a hipótese de aliança com o PMDB. Prevalece, agora, a vontade dos de cima. Trocando em miúdos, vejo que é hora de, mais uma vez, parafrasear Chico Buarque: “Eu bato o portão sem fazer alarde. Eu levo a carteira de identidade. Uma saideira, muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde.” (Mensagem recebida por email).

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Recebi por e-mail este artigo de Reinaldo Azevedo - Revista Veja

Dilma Rousseff: Lição de moral sobre 100 mil cadáveres 27/04/2009

Este autor concorda com o uso dos seus textos, desde que informem a autoria e o local da divulgação.

NÃO SE DÁ LIÇÃO DE MORAL DISCURSANDO SOBRE
100 MIL CADÁVERES


Reinaldo Azevedo (Revista Veja)


"A minha situação fica bastante desagradável para aqueles que defendem que houve ditadura branda no Brasil ou que no Brasil havia uma regularidade, naquele período, democrática. Nem uma coisa nem outra. Naquela época se torturava, se matou, se prendeu".

"Muitas vezes as pessoas eram perseguidas e mortas... E presas por crime de opinião e de organização, não necessariamente por ações armadas. O meu caso não é de ação armada. O meu caso foi de crime de organização e de opinião, que é, vamos dizer assim, a excrescência das excrescências da ditadura".

As duas falas acima são da ministra Dilma Rousseff, na sexta passada. Reclamava da publicação de um documento, na Folha, no último dia 5, referente à sua prisão. Segundo a ministra, a ficha em que ela aparece qualificada como "terrorista/assaltante de bancos" e na qual consta o carimbo "capturado" é falsa. Muito bem. Dilma tem o direito apenas às fichas verdadeiras. E nós também.

A Folha já se redimiu, e mais de uma vez, do emprego da palavra "ditabranda" para designar o regime militar. Ok. Ocorre que o reconhecimento da impropriedade do termo se deu no ambiente turvado pela mistificação das esquerdas. E, em vez de clareza, fez-se mais confusão. A confusão que permite à ministra Dilma Rousseff posar de mártir da democracia, o que ele nunca foi. Relembro: recorreu-se ao termo "ditabranda" para relevar o fato de que algumas das formalidades do regime democrático foram mantidas no país - e tal reconhecimento não isenta o regime de seus crimes. Mas está posto que não se viveu no Brasil uma ditadura similar, por exemplo, à cubana, tão admirada e incensada pelas esquerdas brasileiras, incluindo aquelas que lastimam o emprego da palavra "ditabranda". Com efeito, da ditadura dos Castros, em Cuba, pode-se dizer tudo, menos que tenha sido ou seja "branda". Mas Lula, os petistas e outras correntes de esquerda não vêem mal nenhum em se colocar como propagandistas do regime.

Dilma Rousseff queria uma ditadura comunista no país de modelo soviético. Era essa a utopia do Colina (Comando de Libertação Nacional), que depois se fundiu à VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) parar formar a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares), um dos grupos terroristas mais virulentos que houve no país, com várias mortes e atentados nas costas - e, que se note, o grupo não via mal nenhum em matar gente sem qualquer ligação com a luta política. Afinal, eles queriam a "libertação nacional", né?

Que importância tem isso? A importância que tem a verdade. Se o passado de Dilma não é definidor de suas escolhas presentes, então não precisa haver mentiras sobre a sua história.

- não, não queria democracia; queria ditadura comunista;

- não, não lutava "pela liberdade; lutava para implantar o socialismo;

- não, não foi presa por crime de opinião; foi presa porque pertencia a um grupo que praticou uma série de atentados, com várias mortes.

O fato de que se opunha a uma ditadura não quer dizer que fizesse as melhores escolhas. Nem tudo o que o que não era a ditadura militar prestava. Nem todos os métodos empregados para derrubá-la eram bons. Até porque a opção de muitas correntes da extrema esquerda pela luta armada antecede o golpe militar de 1964 e, evidentemente, o recrudescimento do regime, em 1968. Inventou-se a falácia, desmentida pelos fatos, de que não teria havido guerrilha e terrorismo sem a decretação do AI-5. Mentira. Mentira das mais grotescas.

Quem mente de forma tão descarada sobre o seu passado e o passado do país pode estar disposto a permanecer no terreno da mistificação também no presente. É evidente que Dilma e outros esquerdistas estão tentando magnificar uma coisa sem importância - o emprego da tal palavra "ditabranda" - para tentar, vamos dizer, "enquadrar" a Folha de S. Paulo. É uma regra de ouro da política e dos políticos de esquerda: "saia gritando que este e aquele veículos discriminam o candidato e o partido, e eles tenderão a fazer alguma forma de compensação":

a) moderar na crítica;

b) bater também no adversário daquele que bota a boca no trombone para evidenciar imparcialidade;

c) deixar de lado o assunto que gerou a polêmica.

Sabem o que é pior? Isso costuma funcionar. O PT já percebeu. E age de modo preventivo. Assim que uma reportagem que não é de seu agrado é publicada, imediatamente se lança no ar a suspeita de uma conspiração. Um exército treinado passa a patrulhar o ombudsman. O trabalho, hoje em dia, é facilitado pela canalha oficialista na Internet, gente que escreve descaradamente a soldo. Até funcionário capacho da Lula News entra na jogada.

O Brasil tem hoje 180 milhões de habitantes. Cuba tem 11 milhões. Ao longo de 21 anos de ditadura, as próprias esquerdas admitem que morreram, no Brasil, no máximo, 424 pessoas - e os números são, diria, alargados: estão aí os guerrilheiros do Araguaia, os que morreram nas cidades com armas na mão e até alguns desaparecidos em razão de causas supostamente políticas, sem comprovação no entanto. Tudo bem: tomemos o número pelo teto. Em Cuba, que tem 1/16 da população do Brasil, o regime dos Castros fez 100 mil mortos. Como não dá para saber exatamente qual era a população de cada país no momento das mortes, faço as contas segundo os números atuais: no Brasil, morreu 0,23 pessoa por grupo de 100 mil habitantes. Na Cuba de Fidel, há 909 cadáveres por grupo de 100 mil. Sabem o que isso significa? Que o Coma Andante e o anão de circo que o sucedeu são 3.951 vezes mais assassinos do que os ditadores brasileiros. Se quiserem considerar os quase 2 milhões de cubanos no exílio, ok. Aí a dupla é apenas 3.342 vezes mais homicida dos que os nossos brutamontes. "Ah, mas a nossa ditadura durou 21 anos, e a de Cuba, já tem 50". É verdade. A média de mortes, por ano de ditadura, no Brasil, seria de 20,1 pessoas; na ilha, de 2 mil.

Sem esses números não dá para discutir nem ditabranda nem ditadura. Sem esses números, o que sobra é mistificação. Dilma Rousseff diga o que quiser. Só não pode fazer de conta que sempre foi uma amante da democracia. Dado o comportamento do Brasil em relação ao regime cubano, essa gente não entende o paradigma democrático nem hoje em dia.

E
já que a gente tem de dizer tudo sem medo de aborrecer, então vamos lá. Se a VAR-Palmares, de Dilma Rousseff, tivesse chegado ao poder, vocês acham que os mortos estariam mais para os 424 da ditadura brasileira ou para os 100 mil da cubana? Sempre lembrando que, na mesma proporção da ilha, os mortos brasileiros, sob o regime dos comunas, poderiam chegar a 1,5 milhão de pessoas. É matemática, não é ideologia.


"Ah, mas não dá para contar a história que não houve". Ok. Fiquemos, então, com a que houve. Os ditadores cubanos são 3.951 vezes mais homicidas do que os ditadores brasileiros. As esquerdas e o governo brasileiro, de que Dilma é a grande estrela, incensam os cubanos e detestam os brasileiros.

Para essa gente, o matar menos faz os bandidos; o matar muito faz os heróis.

PS: A canalha pode rosnar à vontade. Ou contesta a matemática dos homicídios ou vá para o diabo. Sempre lembrando que qualquer morte nos diminui. Sendo assim, 424 mortes nos diminuem 424 vezes. Cem mil mortes nos diminuem 100 mil vezes.

Por Reinaldo Azevedo