TELEMEDICINA NO SUS: A PROMESSA É BONITA, MAS QUEM VAI PAGAR A CONTA?

Flávio Bolsonaro promete ampliar o atendimento médico on-line no SUS, com tecnologias inovadoras e integração de informações de saúde. Mas há uma pergunta fundamental: o que há realmente de novo nessa proposta e como ela funcionaria na prática?

A telemedicina não é novidade. O SUS já possui serviços de telesaúde, consultas remotas e iniciativas de integração de dados médicos. A questão é que esses serviços precisam ser ampliados, aperfeiçoados e financiados para atender adequadamente a população.

Tenho plano de saúde da Unimed e já utilizo atendimento médico on-line. Mesmo assim, posso precisar agendar uma consulta e esperar mais de um dia. Além disso, sou atendida por um médico de plantão, e não necessariamente pelo profissional que conhece meu histórico. Se isso acontece em um sistema com número limitado de beneficiários, como será atender milhões de brasileiros pelo SUS?

Os desafios são enormes:

• Internet e equipamentos: como atender pessoas sem smartphone, sem computador ou sem conexão estável, especialmente nas regiões rurais e isoladas?

• Internet gratuita: se o governo pretende garantir acesso digital aos brasileiros de baixa renda, precisará financiar a conexão, além de ampliar a infraestrutura de telecomunicações.

• Profissionais de saúde: aplicativos não substituem médicos, enfermeiros, exames e atendimento presencial. Será necessário contratar profissionais suficientes para evitar que a fila presencial se transforme em fila virtual.

• Continuidade do tratamento: é preciso garantir acesso ao histórico médico, integração dos exames e acompanhamento adequado dos pacientes.

• Proteção dos dados: prontuários médicos exigem sistemas seguros, manutenção permanente e proteção contra vazamentos.

E quanto custaria tudo isso?

Não foi apresentado, nas propostas divulgadas, um orçamento detalhado que permita calcular o investimento total. Para dimensionar apenas uma parte da despesa, consideremos uma hipótese ilustrativa: se o governo subsidiasse um pacote de internet de R$ 50 mensais para famílias de baixa renda, o custo seria:

  • 5 milhões de famílias: R$ 3 bilhões por ano.
  • 10 milhões de famílias: R$ 6 bilhões por ano.
  • 20 milhões de famílias: R$ 12 bilhões por ano.

Esses valores são simulações, não preços oficiais nem estimativas do número de famílias que precisariam do benefício. E representam somente a conexão: não incluem médicos, equipamentos, unidades de atendimento, sistemas digitais, segurança de dados ou manutenção.

Portanto, o investimento total poderia ser muito maior, dependendo do modelo adotado.

Modernizar o SUS é necessário. Mas apresentar tecnologias que já existem como se fossem uma grande novidade não basta.

Antes de fazer promessas, um candidato precisa explicar quanto vai investir, de onde virão os recursos, quantos profissionais serão contratados, qual será o tempo máximo de espera e como serão atendidas as pessoas sem acesso à internet.

A saúde pública não pode ser administrada com promessas vagas. Precisa de planejamento, orçamento, profissionais e metas verificáveis.

A pergunta que fica para Flávio Bolsonaro é simples: qual é o custo real dessa proposta e como ele pretende garantir que a tecnologia chegue a todos os brasileiros, inclusive aos mais pobres e aos que vivem nas regiões mais isoladas do país?

Fontes para consulta: Ministério da Saúde — Telessaúde; Folha de S.Paulo — Saúde: planos de Lula e Flávio não dizem quem paga a conta, 14/08/2026.


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