Não existe herança política
Uma reflexão sobre sucessão familiar e vocação na vida pública
É curioso como herança e talento são confundidos.
Um grande médico pode deixar ao filho seu consultório, sua biblioteca, seu nome respeitado e até uma clientela que conquistou ao longo de sua vida profissional. Mas não pode lhe deixar, por herança, aquilo que talvez tenha sido seu maior patrimônio: o conhecimento que adquiriu com esforço e dedicação e a experiência que acumulou ao longo da vida.Ainda que um pai ofereça ao filho todas as oportunidades para que se forme, estude e se prepare isso não significa que ele conseguirá desenvolver ou honrar tudo aquilo que recebeu. Oportunidades podem ser oferecidas, mas aproveitá-las depende de cada um. O inverso também ocorre: mesmo diante da mediocridade paterna, o filho pode superá-lo significativamente, impulsionado por sua própria capacidade, visão e preparo.
O mesmo acontece com artistas, escritores, empresários, advogados e tantos outros que constroem sua trajetória em diferentes áreas. O filho pode revelar uma vocação semelhante à do pai. Pode ser tão talentoso quanto ele, ou até superá-lo, mas será por um talento próprio, desenvolvido a partir de sua capacidade, seu preparo, sua visão e sua experiência.
Na política, porém, acredita-se existir uma espécie de herança diferente.
No Brasil, o sobrenome frequentemente chega antes do político. Traz visibilidade, bons relacionamentos, contatos e votos. Um histórico familiar pode transformar um desconhecido em candidato conhecido antes mesmo deste ter demonstrado sua capacidade.
É justamente aí que está a contradição: o sobrenome pode abrir caminhos, mas não transmite, automaticamente, competência, preparo ou vocação política.
Seria, portanto, um equívoco supor qualquer relação entre influência familiar e capacidade política.
“Tal pai, tal filho” e “filho de peixe, peixinho é” são expressões antigas que, em geral, são falhas. Se fossem verdadeiras, filhos de políticos medíocres seriam necessariamente medíocres e filhos de grandes políticos seriam necessariamente grandes.
Não são.
Na política brasileira, a influência familiar é particularmente evidente. Há famílias que atravessam gerações ocupando espaços de poder, e filhos que entram na política carregando um sobrenome que lhes proporciona uma visibilidade que outros precisam conquistar ao longo de anos.
É nesse ponto que penso em Jair Bolsonaro. Foram quase quatro décadas de vida política, iniciada em 1988, quando se elegeu vereador, seguindo-se sucessivos mandatos de deputado federal. Embora, durante todo esse longo percurso, nunca tenha se destacado, na minha visão, como uma liderança de grande expressão nacional, e, muito menos, tenha deixado uma obra política correspondente à dimensão do patrimônio eleitoral que viria a acumular. Na realidade, foi audacioso ao perceber o espaço político que se abriu em determinado momento e teve êxito ao ocupá-lo. Uma conjuntura excepcional, favorecida pela forte rejeição ao candidato do campo da esquerda, favoreceu sua candidatura e o levou à Presidência.
Seus filhos, entretanto, já haviam ingressado na política antes de sua chegada à Presidência. O sobrenome Bolsonaro já lhes proporcionava uma visibilidade e uma vantagem eleitoral que outros políticos precisam construir ao longo de anos. A eleição do pai ampliou enormemente a dimensão desse patrimônio político familiar.
Quando se olha para o conjunto desses mandatos, surge outra pergunta: que obra política ficou como resultado de tantos anos de atuação? Que projeto relevante, capaz de melhorar concretamente a vida de seus eleitores, pode ser apontado como marca dessa trajetória? Na minha percepção, muito pouco. O patrimônio político e eleitoral da família cresceu muito mais do que sua contribuição efetiva, enquanto os custos dessa longa presença na vida política pesaram nos gastos públicos.
Há ainda um aspecto que chama a atenção: o crescimento político da família veio acompanhado de um expressivo crescimento patrimonial. Tal coincidência merece ser analisada.
Visibilidade não é preparo, sobrenome não é competência, e votos não é, necessariamente, uma prova de capacidade política.
Esse risco define bem o problema do que se costuma chamar de herança política: confundir o espaço que alguém conseguiu ocupar com a capacidade que demonstrou para ocupá-lo.
O sobrenome pode abrir portas, no entanto, não pode caminhar pelo candidato. Isto vale para qualquer profissão. O filho de um grande pianista terá um piano em casa, mas precisará aprender a tocar. O filho de um grande escritor terá uma biblioteca, mas precisará escrever. O filho de um grande médico poderá herdar uma clínica, mas terá de estudar medicina.
Por que na política seria diferente?
Seria muito mais honesto que todo aquele que receba um caminho político já aberto por sua família faça uma pausa e reflita: tenho realmente vocação para isso? Tenho preparo? Tenho visão? Tenho alguma coisa minha para oferecer? Estou aqui porque sou capaz ou porque meu sobrenome me trouxe até aqui?
Essa reflexão pode evitar carreiras construídas apenas sobre a sombra de um antepassado, além de produzir algo muito mais proveitoso: filhos percebendo que não nasceram para continuar a profissão dos pais – e que seriam muito mais bem sucedidos encontrando o próprio caminho.
Porque seguir o pai não é necessariamente honrá-lo.
Às vezes, honrar uma família é justamente ter coragem de fazer algo diferente dela e construir, com o próprio esforço, um nome que não precise viver da lembrança de outro.
A questão mais inquietante talvez não esteja nos chamados “herdeiros políticos”, e sim em nós, os eleitores. Como explicar que políticos que atravessam sucessivos mandatos sem apresentar uma obra capaz de justificar a confiança recebida continuem encontrando espaço nas urnas? Como se explica que o sobrenome, a exposição e a fidelidade de uma parcela do eleitorado sejam suficientes para renovar mandatos, mesmo quando os resultados não correspondem às expectativas?
Quiçá tenhamos nos acostumado a eleger nomes em vez de avaliar trajetórias, a votar em famílias em vez de cobrar resultados, a confundir presença política com atuação política.
Enquanto isso não mudar, o sobrenome continuará sendo um atalho poderoso para chegar ao poder.
No fim das contas, a verdadeira herança não deveria ser o cargo, o mandato, o sobrenome ou a quantidade de votos.
Deveria ser o exemplo.
Exemplo não se herda: segue-se e constrói-se.


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